A crescente tensão política nos Estados Unidos, amplificada pela reeleição de Donald Trump e pelas recentes transformações no comando militar do país, parece transbordar das telas de cinema para a realidade. O filme Guerra Civil (Civil War, 2024), dirigido por Alex Garland, tornou-se um retrato simbólico do momento atual, funcionando quase como um espelho distorcido da sociedade norte-americana — onde a divisão interna, a radicalização e o colapso institucional deixam de ser ficção para flertar perigosamente com o real.
A trama do longa apresenta uma nação despedaçada, onde alianças regionais — como as “Forças Ocidentais”, formadas por Texas, Califórnia e a “Florida Alliance” — se insurgem contra o governo federal. A protagonista, a fotojornalista Lee Smith, testemunha o caos de um país em frangalhos, dividido por ideologias e mergulhado na violência. Embora Garland não aponte causas políticas explícitas, a narrativa ressoa de forma inquietante com o segundo mandato de Donald Trump em 2025.
O novo paradigma militar de Trump

Nos primeiros cem dias do novo governo, Trump reconfigurou completamente o aparato de defesa dos Estados Unidos. Nomeou Peter Hegseth como secretário de Defesa — agora rebatizado como “secretário de Guerra” — e passou a imprimir uma retórica nacionalista e combativa nas Forças Armadas. O gesto mais simbólico dessa guinada foi a proposta de renomear o Departamento de Defesa para “Departamento de Guerra”, retomando o nome usado antes de 1947.
A justificativa é histórica, mas o gesto é político. Trump tenta resgatar a imagem de um país em tempos de glória militar, evocando o espírito de Pearl Harbor e das guerras do século XX como metáfora para o “combate interno” que, segundo ele, ameaça os Estados Unidos de hoje. Esse “inimigo interno” é, em seu discurso, o progressismo, o globalismo e a chamada “cultura woke” — que ele considera corrosiva à coesão nacional e ao moral das tropas.
Em fevereiro, Trump demitiu o general Charles Q. Brown, chefe do Estado-Maior Conjunto, rompendo uma tradição de décadas de continuidade institucional entre governos. A demissão — e o subsequente desfile militar em Washington, no aniversário do presidente — reforçaram o caráter personalista do novo mandato e sua busca por lealdade incondicional.

A mudança de nomenclatura e a convocação de cerca de 800 generais e almirantes em Quântico, Virgínia, sinalizam o fortalecimento da influência direta do Executivo sobre os militares. Em um país que construiu sua identidade sobre o princípio da subordinação militar ao poder civil, o gesto reacende temores de politização das Forças Armadas e de um enfraquecimento dos freios constitucionais.
Um retorno simbólico ao passado
O resgate do termo “Departamento de Guerra” carrega um peso ideológico. A instituição foi rebatizada como Departamento de Defesa após a Segunda Guerra Mundial, em meio ao esforço para garantir a neutralidade militar e reforçar o controle civil. Como recorda o historiador John Gaddis em The United States and the Origins of the Cold War (1941–1947), o pós-guerra consolidou uma arquitetura política que buscava evitar o militarismo exacerbado. Trump, ao revisitar essa simbologia, parece propor o oposto: uma reaproximação entre o poder político e o aparato bélico.

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A comemoração dos 250 anos do Exército norte-americano, em 2025, serviu como cenário perfeito para essa reapropriação histórica. Trump usou a data para celebrar não apenas o aniversário da instituição, mas também o seu próprio — e o fez com tanques, bandeiras e discursos nacionalistas. O último desfile militar desse porte havia ocorrido em 1991, após a vitória na Guerra do Golfo.
O eco do “Corolário Roosevelt” voltado para dentro
Em setembro, Trump e Hegseth anunciaram uma mudança estratégica sem precedentes: direcionar a doutrina de segurança nacional para o “inimigo interno”. Inspirando-se no antigo Corolário Roosevelt — que justificava intervenções militares em países vizinhos para proteger os interesses dos EUA —, Trump propõe aplicar a mesma lógica dentro das fronteiras nacionais.
Em discurso recente, o presidente defendeu o uso das Forças Armadas em operações urbanas, alegando que “a verdadeira ameaça à América nasce dentro de casa”. Essa postura representa uma inflexão na doutrina militar, deslocando o foco do combate externo para a repressão de movimentos internos. É uma narrativa perigosa, que mistura patriotismo com autoritarismo e faz ecoar, em muitos ouvidos, o som de uma marcha de guerra civil.
A retórica encontra respaldo em parte da base conservadora, especialmente entre militares descontentes com as reformas do governo anterior. O discurso em Fort Bragg, no qual Trump defendeu um “retorno ao ethos guerreiro” e criticou a “falta de preparo físico” dos generais, reforça a tentativa de reaproximar o Exército de uma identidade ideológica conservadora e nacionalista.
Entre o cinema e a realidade
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O paralelo com Guerra Civil não é apenas estético. O filme de Alex Garland não fala sobre Trump, mas sobre o colapso de uma nação dividida por discursos extremos. Contudo, a coincidência entre o enredo e os acontecimentos políticos atuais nos Estados Unidos — o recrudescimento da polarização, a militarização da política e a retórica do inimigo interno — faz com que a ficção soe como uma advertência quase profética.
Enquanto analistas alertam para o risco real de um conflito civil nos EUA, outros observadores, como o New York Post, destacam que os inimigos externos se aproveitam da divisão interna para enfraquecer o país. Em ambos os casos, o consenso é o mesmo: a democracia americana atravessa um de seus períodos mais frágeis desde a década de 1860.
Se o filme de Garland mostrava uma América em ruínas, o cenário político de 2025 sugere que talvez estejamos assistindo aos créditos iniciais dessa distopia — e não ao seu epílogo.




























